Produtividade começa antes de você chegar ao escritório

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Por Valquiria Gonçalves

Secretária Executiva

Quando pensamos em produtividade, é comum imaginar ferramentas de organização, listas de tarefas, reuniões eficientes, planejamento, metas e gestão do tempo.

Mas existe uma parte da produtividade que começa muito antes de abrirmos o computador ou chegarmos ao escritório. Ela começa em casa. E, talvez, até antes disso: na maneira como organizamos a nossa vida.

O meu expediente começa antes do expediente

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, meu despertador toca cedo. Às 5h30 da manhã, enquanto boa parte da cidade ainda está dormindo, eu já estou na academia.

Gosto de praticar musculação e, para mim, esse momento faz parte da minha rotina de cuidado pessoal. Treino por aproximadamente uma hora e depois volto para casa. Tomo banho, tomo meu café da manhã, organizo o que preciso para o dia e, então, sigo para o trabalho.

Pode parecer uma rotina puxada para algumas pessoas. Para mim, entretanto, acordar cedo e treinar não é a parte mais difícil. O que mais pesa é outra coisa: o tempo que passo no trânsito.

Moro longe do escritório e, em alguns dias, o trajeto entre minha casa e o trabalho chega a aproximadamente 50 minutos. Cinquenta minutos. É quase uma hora do meu dia comprometida com o deslocamento.

E existe ainda uma variável que não está sob meu controle: o trânsito.

Se houver um acidente, uma obra, uma interdição ou simplesmente um fluxo maior de veículos, os 50 minutos podem facilmente se transformar em um período ainda maior. É aí que começo a pensar que produtividade não é apenas fazer mais coisas. Produtividade também é conseguir escolher melhor onde colocamos nosso tempo.

O tempo perdido que não aparece na agenda

Quando organizamos nossa rotina, normalmente contabilizamos as horas de trabalho.

“Trabalho das 8h às 18h.”

Mas será que nosso dia profissional realmente começa às 8h?

Para quem enfrenta deslocamentos longos, existe uma espécie de “jornada invisível” antes e depois do expediente. O tempo gasto no trânsito não aparece na folha de ponto, mas ocupa espaço na nossa vida. E esse espaço poderia ser utilizado de muitas outras maneiras.

No meu caso, aqueles 50 minutos poderiam significar um café da manhã mais tranquilo com minha filha. Poderiam ser usados para estudar. Poderiam permitir que eu cuidasse de alguma coisa em casa. Poderiam simplesmente me dar alguns minutos a mais para começar o dia sem tanta pressa.

Não se trata de dizer que todo deslocamento é necessariamente ruim ou que devemos eliminar o trajeto até o trabalho. A questão é outra: quanto da nossa vida estamos destinando ao deslocamento e quanto desse tempo realmente precisamos destinar a ele?

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estudos sobre deslocamento e teletrabalho indicam que a redução do tempo gasto no trajeto pode estar associada a maior satisfação com a vida. A organização também aponta que parte do tempo economizado com deslocamentos tende a ser direcionada a atividades de lazer e outras atividades pessoais.

Isso ajuda a colocar uma questão importante em perspectiva: tempo de deslocamento também é tempo de vida.

Em uma rotina cada vez mais acelerada, talvez exista um novo conceito de luxo ganhando espaço: ter tempo.

Tempo para cuidar da saúde. Para fazer atividade física. Para descansar. Para estar com a família. Para trabalhar com mais tranquilidade. Para encontrar os amigos. Para simplesmente fazer aquilo que realmente importa.

E, nesse cenário, o lugar onde moramos pode ter uma influência muito maior sobre nossa qualidade de vida do que imaginamos.

Qualidade de vida não começa depois do trabalho

Existe uma ideia equivocada de que qualidade de vida é aquilo que fazemos depois do expediente.

É o jantar em família.

É o passeio no fim de semana.

É a viagem nas férias.

É a academia depois do trabalho.

É o tempo com os filhos.

Mas qualidade de vida também está na maneira como construímos as horas que antecedem e sucedem o trabalho.

Está no sono.

Na alimentação.

Na atividade física.

Na possibilidade de fazer uma pausa.

Na facilidade de chegar a determinados lugares.

Na oportunidade de conviver com quem amamos.

Na sensação de não precisar correr o tempo todo.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que as condições em que trabalhamos podem influenciar a saúde mental, o desempenho e a produtividade. Mas talvez seja preciso ampliar esse olhar: nossa rotina não começa e termina dentro do escritório. Sono, deslocamento, descanso e vida pessoal também disputam espaço nas mesmas 24 horas.

Por isso, quando falamos de produtividade, talvez precisemos ampliar um pouco o conceito.

Uma pessoa produtiva não é necessariamente aquela que consegue colocar o maior número possível de tarefas dentro de um dia. Pode ser aquela que consegue organizar a vida de maneira que trabalho e vida pessoal não estejam permanentemente competindo pelo mesmo tempo.

E se a localização fosse parte da estratégia de produtividade?

É aqui que a escolha de onde morar começa a ganhar uma dimensão diferente.

Quando procuramos um imóvel, geralmente pensamos em metragem, número de quartos, acabamento, segurança, preço e localização. Mas talvez devêssemos acrescentar uma pergunta: “Quanto tempo este endereço pode me devolver?”

Um imóvel próximo ao trabalho pode representar minutos — ou até horas — economizados todos os dias. Um empreendimento próximo a serviços essenciais pode reduzir deslocamentos. Uma academia no próprio empreendimento pode facilitar a manutenção de uma rotina de exercícios. Um espaço de coworking pode permitir trabalhar sem necessariamente precisar se deslocar até o escritório. Uma localização próxima a parques pode facilitar momentos de lazer e atividades ao ar livre.

Nenhuma dessas soluções, isoladamente, parece revolucionária. Mas talvez o verdadeiro impacto esteja justamente na soma delas. São pequenas facilidades que diminuem o esforço necessário para viver a rotina.

A moradia como parte da estratégia de vida

Talvez este seja um dos aspectos mais interessantes das novas formas de morar. A casa deixa de ser apenas um lugar onde chegamos no final do dia. Ela passa a ser parte da estratégia de vida.

Isso é especialmente relevante em uma época em que muitas pessoas precisam conciliar trabalho, estudos, família, saúde, lazer, vida social e cuidados pessoais.

Quando tudo compete pelas mesmas 24 horas, cada deslocamento evitado, cada tarefa simplificada e cada serviço disponível próximo pode fazer diferença.

Não significa necessariamente morar menor. Significa morar de maneira mais inteligente para a vida que se deseja ter.

O que você faria com 50 minutos a mais?

Essa é a pergunta que mais me faz refletir sobre a minha própria rotina. Se eu conseguisse reduzir significativamente o meu deslocamento diário, o que faria com esse tempo?

Talvez tomasse um café mais demorado com minha filha.

Talvez estudasse um pouco mais.

Talvez conseguisse adiantar alguma tarefa da casa.

Talvez tivesse alguns minutos para organizar melhor o dia.

Ou talvez simplesmente não fizesse nada.

E talvez esse último item seja justamente o mais importante.

Nem todo tempo economizado precisa ser transformado em produtividade.

Alguns minutos podem ser usados para descansar.

Para conversar.

Para respirar.

Para olhar pela janela.

Para tomar um café sem olhar o relógio.

Afinal, produtividade não deveria significar preencher cada espaço vazio da agenda.

Deveria significar ter mais liberdade para decidir como queremos utilizar nosso tempo.

Morar melhor também pode significar deslocar-se menos

Quando pensamos na moradia do futuro, tecnologia, sustentabilidade, arquitetura e inovação certamente fazem parte da conversa.

Mas existe uma inovação muito simples que talvez seja uma das mais valiosas: facilitar a vida.

Uma moradia bem localizada, conectada a serviços, mobilidade e espaços de convivência pode contribuir para uma rotina em que as pessoas gastem menos tempo resolvendo questões práticas e tenham mais disponibilidade para aquilo que realmente importa.

Essa é uma das ideias que orientam a proposta da BE, A Moradia do Futuro: pensar empreendimentos que dialoguem com novas formas de viver, combinando localização, tecnologia, praticidade, bem-estar e diferentes soluções para o cotidiano.

E talvez seja justamente aí que moradia e produtividade se encontrem. Não porque uma boa moradia faça alguém trabalhar mais. Mas porque uma vida mais organizada e uma rotina com menos obstáculos podem abrir espaço para que cada pessoa escolha melhor onde colocar sua energia.

No fim, produtividade é sobre escolhas. Eu continuo acordando cedo. Continuo treinando às 5h30. Continuo gostando da sensação de começar o dia cuidando da minha saúde. O que eu gostaria de mudar não é necessariamente a minha rotina de exercícios. É o tempo que preciso gastar nos deslocamentos que fazem parte dela e, depois, para chegar ao trabalho.

Podemos, entretanto, repensar como essas horas são distribuídas. Podemos escolher melhor onde morar. Podemos buscar mais praticidade. Podemos aproximar o que é importante. Podemos reduzir deslocamentos desnecessários. Podemos criar uma rotina que favoreça saúde, produtividade e convivência. E talvez seja essa uma das grandes tendências das novas formas de morar: não oferecer apenas um lugar para viver, mas contribuir para uma vida que faça mais sentido.

Porque produtividade não começa quando ligamos o computador. Produtividade começa quando planejamos a vida que queremos viver. E, às vezes, uma das melhores formas de começar é perguntando: “Quanto tempo este lugar pode devolver para mim?”

Referências

OCDE. OECD Employment Outlook 2022: Well-being, productivity and employment. OECD Publishing, 2022.

Organização Mundial da Saúde (OMS). Mental health at work. WHO, 2024.

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